domingo, 15 de dezembro de 2013

Música. As praias de Jacques Klein.

do Blog Aurora de Cinema
Há 60 anos, o prêmio num concurso de música em Genebra transformava um jovem de Aracati num dos grandes nomes da música mundial. Jacques Klein, mais que um pianista, foi um sonho para a música brasileira.

Contam que, certa vez, durante o carteado, um amigo de Jacques Klein se levantou da cadeira provocando um determinado ruído. “Arrastado em fá sustenido”, atirou Klein em tom certeiro. Logo, todos foram ao piano conferir o acorde, que estava correto. A história, com cara de lenda, não é o resultado de uma habilidade mágica ou bruxaria. O músico tinha o que se chama de ouvido absoluto, a capacidade de reconhecer qualquer nota musical. CONTINUE LENDO
De fato, essa é uma das muitas histórias que contam do pianista Jacques Klein. Referência na música de câmara nacional, a história deste cearense de Aracati, município situado a 148 km de Fortaleza, mudou radicalmente há 60 anos. Inscrito no Concurso Internacional de Execução Musical, em Genebra, na Suíça, ele venceu outros 113 candidatos – vindos de 33 países – interpretando peças de Bach, Beethoven e Chopin, entre outras. A execução de Klein chegou a um nível tal de perfeição, que seu primeiro lugar foi uma unanimidade entre o júri. Detalhe: desde 1948, o concurso não dava o primeiro lugar a ninguém. O máximo que se conseguia até então era o segundo posto.

Daí em diante, a história do menino que adorava a praia de Majorlândia tomou outra proporção. Reconhecido internacionalmente como concertista, ele viajou a Europa, Ásia e África, sempre com muito sucesso e críticas favoráveis. Klein tornou-se um solista frequente em orquestras como a Filarmônica de Londres, a Sinfônica de Viena e a Filarmônica de Berlim. Era sempre comparado a nomes como o polonês Arthur Rubinstein e o ucraniano Vladimir Horowitz.


Caymmi

No entanto, mesmo correndo o mundo, a pequena Aracati não saía da sua rota. Afinal, foi ali que ele descobriu sua vocação. Contam que Jacques Klein, nascido em 10 de julho de 1930, tinha cinco anos, quando tirou do piano a melodia de “Marcha do grande galo”, de Lamartine Babo, usando um dedo só. A surpresa fez com que seu pai, pianista amador e fundador do Conservatório Alberto Nepomuceno, lhe matriculasse no curso de Dona Julieta Araripe, quando já moravam em Fortaleza. Da capital cearense, a família mudou-se para o Rio de Janeiro, onde Klein seguiu estudando no Conservatório Brasileiro de Música e com professores particulares. Entre eles, a professora Lúcia Branco chegou a assumir para a mãe do músico: “não tenho mais nada a ensinar ao seu filho. Ele já sabe mais do que eu”.


Na adolescência, ele começou a se encantar pelo jazz. Montou um trio com dois amigos. Também compôs com Dorival Caymmi, a quem dedicou um tributo instrumental lançado em 1953, pela Sinter. Nessa época, em Nova York, conheceu e tocou com o lendário Art Tatum. A jam session aconteceu ao som de “Tico-tico no fubá”, de Zequinha de Abreu, outro que ganhou um tributo de Klein, “Evocação I” (1979), dividido com Ezequiel Moreira.

Aliás, essas são algumas das raríssimas gravações deixadas por Jacques Klein. São poucos discos, raras participações e poucas composições. Para compensar, realizou diversos concertos internacionais, foi diretor da Orquestra Sinfônica Brasileira e da Sala Cecília Meireles, no Rio de Janeiro. “Felicidade seria encontrar em Fortaleza, cidade já com mais de um milhão de habitantes, uma estação de concertos ativa e grande”, sonhou o músico em entrevista ao O POVO, de 1979. Três anos depois, no dia 24 de outubro de 1982, ele morreria no Rio de Janeiro - aos 52 anos - vitimado pelo câncer, sem ver seu sonho realizado. Lá mesmo, um mês antes, já bastante debilitado e precisando de apoio pra chegar ao piano, Jacques Klein realizava seu último concerto, ao lado da Orquestra de Câmara de Moscou. Um réquiem antes do fechar das cortinas.


Depoimentos

“Foi um dos grandes pianistas de todos os tempos, no nível de um Bruno Gelber (Argentino). Um Nelson Freire para sua época. Tem determinados lugares do mundo, que ele é tão respeitado quanto o Eleazar de Carvalho. Quem me citou o nome de Klein foi o maestro do (tenor) Plácido Domingo, que ele conhecia tanto quanto ao Eleazar”.
Artur Barbosa, maestro da Orcec



“O Jacques foi um homem que se dedicou à música e jamais perdeu suas características de nordestino. Mas era também um homem do mundo. O que impressiona é a sua expressão, a que ele consegue nas interpretações. Um verdadeiro mágico. E era sempre aquela pessoa sorridente. Um dos gigantes do piano”.
Decartes Gadelha, músico e artista plástico

Publicado em Jornal OPOVO  14.12.13

Por Marcos Sampaio

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