quinta-feira, 26 de novembro de 2015

Aracati. Trabalhadores desafiam o tempo. Seu Xavier, barbeiro tradicional de 74 anos

Fotos: Ellen Freitas
A prática mostra que o trabalho, além de garantir a cidadania, ajuda a passar o dia e ter qualidade de vida.

Aracati. No exprimido quartinho localizado na Rua Tabelião João Paulo, 16, Aracati, meio a tumultuada pilha de banquinhos de madeira, Francisco Xavier da Silva, o “Seu Xavier”, 74 anos, senhor baixinho, de cabeleira grisalha, casado e pai de um casal, com curiosidade espia o movimento da rua entre um corte de cabelo e outro, entre uma barba por fazer e outra. Com as mãos firmes ao segurar uma tesoura dentada, ele que é um dos barbeiros mais antigos e conhecidos da Terra dos Bons Ventos, reserva o espaço para falar de si e agradecer aos que lhe fazem uma visita.

Com os apetrechos arrumadinhos em cima de uma mesa de madeira, de quem herdou da mãe que não conviveu, Seu Xavier vai puxando pela memória e contando os causos pelos quais passou. “É um dom que Deus me deu”, diz ele, começando a desvendar sua história ao mesmo tempo em que busca justificar estar todos os dias no trabalho, no auge da melhor idade, com a hora de chegar pontualmente as 6h da manhã e sem ter hora para voltar pra casa, para a mulher e para a filha com quem convive.

Seu Xavier perdeu a mãe com 28 dias de vida; ela tinha 23 anos. A morte prematura veio de uma fatalidade em decorrência de uma “espinha carnal”, segundo ele explica. “Naquele tempo só tinha um médico. Minha mãe estava de resguardo de mim. Ela foi espremer uma espinha verde e depois cutucar com uma agulha e adoeceu de tétano” conta. A vacina antitetânica ainda era pouco acessível em algumas cidades do interior, em 1941. Mesmo assim ele fala com carinho da mãe com quem não chegou a conhecer, carregando sempre consigo uma foto sua, para lembrar de sua beleza e matar tamanha saudade.

Do trabalho, ele conta cheio de orgulho que começou novo, aos 14 anos, seguindo os passos do pai, do avô e do tio, que também eram barbeiros. “Eu novo ia para Itaiçaba de quinta a domingo trabalhar de barbeiro. Ia aprender e fazia o serviço de corte à barba, e voltava pro Aracati”, esclarece. Desde então, nunca abandonou a profissão pela qual tomou gosto e agregou o trabalho de sapateiro, ainda com 18 anos, pelo qual também tem zelo e cuidado.

Como se não bastasse dividir a rotina entre cortes e engraxadas, o barbeiro ainda se viu comerciante: vende banquinhos de madeira e churrasqueira. “Quando não tem cabelo pra cortar, nem sapato pra engraxar, venho lixar um tamborete desse. Aqui nunca falta o que fazer, é onde completo a renda”, diz ele, revelando ser aposentado e que o trabalho é uma forma de interagir com outras pessoas e ocupar a cabeça.

Seu Xavier se orgulha de ser procurado por “doutores de gravata”, como ele define os bancários, médicos e advogados que já disputaram espaço entre as quinquilharias da sua barbearia e sentarem na Ferrante 1960, cadeira de barbearia vermelha, comprada de segunda mão há 40 anos. “Não tem ninguém aqui que saiba fazer um social como eu faço”, diz vaidoso sobre sua especialidade em corte de cabelo masculino.

Apesar da fama, ele lamenta que o setor de barbearia esteja acabando, dizendo que, por conta do grande número de salões que vem surgindo ofertando serviços unissex, o trabalho de barbeiro, como o dele, fica para uma clientela diferenciada.

Sobre o futuro, Seu Xavier conta que espera que Deus lhe dê o mesmo destino dos demais barbeiros que conheceu: morrer no seu ofício. “Barbeiro sempre morre na barbearia, e os barbeiros que eu conheci morreram assim. Eu gostaria que fosse assim, mas isso não sou eu quem decide”.


Matéria extraída do
Caderno Regional do Jornal Diário do Nordeste
Em 08/11/15 por Ellen Freitas/Honório Barbosa - Colaboradores

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