sexta-feira, 22 de janeiro de 2016

Para onde vai o dinheiro que iria para o Carnaval

Érico Firmo é colunista no
Jornal O POVO
Um dos debates das últimas semanas é sobre o corte dos recursos públicos para o Carnaval. Já havia sido assim no ano passado. Gestores anunciam cancelamento do Carnaval e recebem aplausos. A ponto de o site Sensacionalista, que faz humor com notícias fictícias que flertam com a realidade, brincou: “Prefeito do interior cria Carnaval na cidade só para cancelar e transferir a verba para fim social”. Se não chegou a tanto, tem acontecido quase
isso (leia acessando este link: http://bit.ly/carnavalsensacionalista).

A discussão é boa e serve para refletir sobre prioridades e sobre a forma como os recursos são gastos. E ajuda a refletir sobre o que é essencial, o que é supérfluo e sobre como esses valores podem variar conforme o nicho social. Como em tudo mais, não creio que haja verdades absolutas.

Quando investir em Carnaval
Se uma cidade vive situação de calamidade, colapso social, concordo que não há mesmo clima para Carnaval. Porém, também não concordo com o extremo oposto.

Muita gente defende que só é legítimo investir em lazer, entretenimento e cultura quando o poder público já tiver resolvido todos os demais problemas da sociedade. Quando não houver mais nenhuma pendência nas outras áreas, a perfeição tiver sido atingida. Ou seja: nunca.

Essa visão, tão difundida, enxerga diversão, lazer, brincadeira, festa, tudo isso como coisas supérfluas diante do essencial. Não é o que diz a Constituição. O lazer é definido entre os direitos sociais, equiparado à educação, saúde, alimentação, trabalho, moradia, segurança...

Não que todos tenham a mesma importância, absolutamente. Há de se dar o devido peso a cada um desses direitos. O lazer não deve receber os mesmos investimentos feitos na educação ou na saúde. Mas, a proporção também não é de tudo para uns e nada, zero, para o entretenimento. Uma gestão pública equilibrada é capaz de equacionar prioridades, atender o essencial sem deixar de contemplar o lúdico, a fantasia. A gente não quer só comida, já cantou uma banda que teve muita importância há três décadas.

Tomemos o exemplo de um orçamento doméstico. Mesmo na crise, há quem guarde dinheiro para uma pequena viagem de Carnaval com a família ou os amigos. Não é porque a situação está difícil que todo mundo vai passar os quatro dias dentro de casa. Para além desse período, por maior que seja o aperto, a maioria das famílias consegue ter um bolinho para não deixar um aniversário passar em branco. As comemorações são necessárias.

O momento exige equilíbrio, contenção. Não comporta grandes festanças. Não é o caso de trazer grandes atrações de cachês caríssimos com dinheiro público. Mas, celebrar é preciso. Não é justo negar justamente à gente mais simples o direito a um dia da “alegria fugaz” cantada por Chico Buarque.

Porque, em geral, quem defende que não se gaste dinheiro com festas públicas pode pagar por diversão privada. Nesse caso, é fácil querer sonegar aos outros direitos que alguns podem comprar. Apontam que os governos não devem gastar com festejos para a patuleia, ao mesmo tempo que já se planejam para a folia particular. É o dinheiro de cada um, é justo e merecido que gaste como quiser. Mas chega a ser cruel o egoísmo que pretende tirar de todos aquilo de que alguns não precisam.

O dinheiro que vem do Carnaval
Isso para nem falar de lugares onde o Carnaval é fonte de lucro. Em cidades como Aracati, Paracuru, Beberibe, Carnaval é investimento. Dá retorno. Um eventual corte provoca prejuízo, isso sim, ao invés de evitar despesas. Com possibilidade – é o ideal e desejável – de patrocinadoras arcarem com parte dos custos, se não com a festa inteira.

Observe-se o caso de Pernambuco. É o epicentro do surto nacional de microcefalia. Vê se alguém por lá fala em cancelar os festejos. Porque é uma grande fonte de renda. Lá também tem seca, crise econômica, problemas de saúde. A mesma coisa na Bahia. No Rio de Janeiro, observem se a situação calamitosa da saúde impedirá os desfiles da Sapucaí ou os blocos de rua. Deixar de atrair os milhares de turistas não é propriamente uma forma de preservar os cofres públicos, bem ao contrário.

Fortaleza não tem Carnaval dessa dimensão. Mas, mesmo sem atrair multidões, o crescimento da festa desde o fim da década passada tem segurado muita gente na Cidade. Desse modo, toda uma economia é movimentada, com restaurantes, bares. Dez anos atrás, alguns shoppings fechavam até os cinemas. A Capital tinha ares quase fantasmagóricos. Hoje, há efervescência. E uma economia é movimentada.

O novo destino do dinheiro

Porém, mais importante que discutir para onde o dinheiro deixa de ir é saber para onde ele vai. No ano passado, sob aplausos, um monte de prefeituras cancelou a folia sob pretexto de combater a seca. Alguém aí é capaz de dizer como o dinheiro foi gasto? Alguém viu alguma prestação de contas? Tem-se notícia dos grandes benefícios sociais realizados com os caraminguás economizados no Carnaval de 2015? Porque fica parecendo que basta o dinheiro não ir para a festa popular que o problema está resolvido. Mas, financiar a folia do povo está longe de ser o pior exemplo de gasto público que se encontra por aí. Quando o dinheiro se perde na vala comum dos recursos governamentais, coisa muito pior pode acontecer – e acontece.

por Érico Firmo
ericofirmo@opovo.com.br
www.opovo.com.br 

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